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Como criar um hábito de estudos

fernanda domenicali
engenheira de software · 25 de julho de 2026 · 7 min de leitura

Se eu pudesse voltar alguns anos e dar um único conselho para mim mesma quando estava começando na tecnologia, provavelmente ele não seria sobre Java, arquitetura ou qualquer framework. Eu diria apenas: aprenda a criar um hábito de estudos.
Parece um conselho simples, mas hoje acredito que boa parte do crescimento que tive na carreira não aconteceu porque encontrei o melhor curso ou porque passei horas estudando todos os dias. Aconteceu porque, de alguma forma, estudar deixou de ser um evento isolado e passou a fazer parte da minha rotina.
Isso não significa que eu estudo todos os dias.
Também não significa que eu tenha uma rotina perfeita.
Muito menos que eu acordo às cinco da manhã ou separo duas horas fixas de estudo diariamente.
Na verdade, minha rotina está longe disso.
Como qualquer pessoa que trabalha em tempo integral, existem dias em que termino o expediente completamente cansada e tudo o que quero fazer é descansar. Existem semanas em que o trabalho exige mais do que o normal, surgem reuniões inesperadas, incidentes, demandas urgentes e, sinceramente, abrir um livro é a última coisa que passa pela minha cabeça.
E está tudo bem.
Acho que um dos maiores problemas quando falamos sobre estudo é a ideia de que só existe aprendizado quando seguimos uma rotina perfeita. Parece que, se você não estudou duas horas naquele dia, então o dia foi perdido.
Eu nunca consegui estudar dessa forma.
E talvez justamente por isso tenha conseguido manter esse hábito durante tantos anos.
Estudar é como cuidar da saúde
Gosto de fazer uma comparação com atividade física.
Todo mundo sabe que fazer exercícios faz bem. Não existe muita discussão sobre isso. Mesmo assim, isso não significa que acordamos animados todos os dias para ir à academia ou correr no parque. Existem dias em que estamos cansados, desmotivados ou simplesmente queremos descansar.
Ainda assim, quem transforma o exercício em um hábito não pensa apenas no esforço daquele dia. Pensa nos benefícios que vão aparecer daqui a meses ou anos.
Com o estudo acontece exatamente a mesma coisa.
Nem sempre você vai estar motivado para abrir um livro ou assistir a uma palestra técnica. Nem todo dia vai render duas horas de concentração. Às vezes você terá apenas quinze minutos livres antes de dormir.
Esses quinze minutos continuam contando.
O que constrói uma carreira não é um único dia de estudo intenso. É a soma de pequenas sessões de aprendizado ao longo de meses e anos.
Meu conceito de estudar mudou completamente
Durante muito tempo eu acreditava que estudar significava sentar na frente do computador durante horas acompanhando um curso. Hoje meu conceito de aprendizado é muito mais amplo. Alguns dias estudo lendo um capítulo de um livro técnico. Em outros, leio um artigo interessante publicado por uma empresa de tecnologia.
Às vezes estudo documentação porque preciso entender uma tecnologia nova que apareceu no trabalho. Existem dias em que simplesmente desenvolvo um projeto pessoal para experimentar uma ideia que despertou minha curiosidade.
E há momentos em que o próprio trabalho se transforma no estudo. Isso acontece com muita frequência. Recebo uma demanda envolvendo uma tecnologia que ainda não conheço profundamente e preciso pesquisar, entender como ela funciona, ler documentação, conversar com outras pessoas e testar possibilidades até encontrar uma solução e ai no fim das contas, aprendi algo novo.
Percebi que, conforme fui crescendo profissionalmente, a separação entre "trabalho" e "estudo" começou a ficar cada vez menor. Muitas vezes eles acontecem ao mesmo tempo.
Ainda gosto de reservar momentos específicos para estudar assuntos que despertam meu interesse, mas hoje também enxergo o próprio trabalho como uma oportunidade constante de aprendizado.
O estudo muda conforme a carreira evolui
No início da minha trajetória, estudar tinha um objetivo muito claro, eu queria conquistar minha primeira oportunidade na área. Depois, o foco mudou, passei a estudar para resolver problemas que apareciam no trabalho e para me tornar uma profissional melhor.
Hoje continuo estudando, mas por um motivo diferente. Existe uma curiosidade genuína em entender como as coisas funcionam, quando encontro uma arquitetura interessante, quero compreender por que ela foi construída daquela forma, quando leio sobre uma tecnologia nova, quero entender quais problemas ela resolve, quando vejo uma decisão técnica diferente da minha, gosto de investigar quais foram os trade-offs considerados. Percebi que estudar deixou de ser apenas um meio para alcançar uma promoção ou aprender uma ferramenta nova, ele passou a fazer parte da forma como enxergo minha profissão.
Pare de medir seu estudo em horas
Talvez esse tenha sido um dos maiores aprendizados que tive ao longo dos anos. Existe uma obsessão muito grande por quantidade, duas horas por dia, cem dias seguidos, mil páginas lidas, dez cursos concluídos, nada disso, isoladamente, garante aprendizado.
Prefiro pensar de outra forma, se durante esta semana consegui aprender um conceito novo, entender uma arquitetura diferente, ler um artigo interessante ou experimentar uma tecnologia que nunca tinha utilizado antes, então continuo evoluindo, tem dias em que estudo duas horas, tem dias em que estudo trinta minutos, outros rendem apenas quinze minutos e também existem dias em que simplesmente não estudo porque preciso descansar.
Descansar também faz parte de uma rotina saudável, o problema não é descansar, o problema é abandonar completamente o hábito de aprender.
O que funciona para mim
Depois de muitos anos tentando encontrar uma rotina perfeita, percebi que ela provavelmente não existe. O que funciona para mim é manter o aprendizado presente de diferentes formas ao longo da semana, as vezes estou lendo um livro técnico, em outros momentos acompanho blogs de engenharia que gosto bastante, também costumo ler documentação oficial sempre que começo a trabalhar com uma tecnologia nova.
Projetos pessoais ocupam um espaço importante nesse processo, porque me permitem experimentar assuntos que talvez eu nunca utilizasse no trabalho naquele momento, escrever artigos para o Debugando Ideias também faz parte dos meus estudos. Muitas vezes preciso pesquisar referências, validar conceitos e organizar meu próprio entendimento antes de publicar um texto.
Nos últimos meses, a Inteligência Artificial também passou a fazer parte desse processo. Não para estudar por mim, mas para me ajudar a organizar conhecimento, levantar perguntas e explorar diferentes perspectivas sobre um assunto. Inclusive, escrevi um artigo contando como utilizo a IA como parceira de engenharia e como isso mudou minha forma de aprender.
Perceba que nenhuma dessas atividades, sozinha, representa todo o meu aprendizado. É a combinação delas que faz diferença.
Estudar é um investimento que quase nunca mostra resultado imediato
Talvez esse seja um dos motivos pelos quais tantas pessoas desistem, você estuda hoje e, muitas vezes, nada muda amanhã, na semana seguinte, também não. Mas, meses depois, surge uma oportunidade que exige exatamente aquele conhecimento que parecia não ter utilidade ou aparece um problema no trabalho e você lembra de um artigo que leu meses atrás ou durante uma entrevista consegue responder uma pergunta porque, em algum momento, decidiu dedicar meia hora do seu dia para aprender algo novo.
O conhecimento raramente gera retorno imediato. Ele funciona muito mais como um investimento de longo prazo. Quanto mais você acumula, mais conexões consegue fazer entre assuntos diferentes.
Considerações finais
Sempre que alguém me pergunta como criar um hábito de estudos, percebo que a resposta dificilmente está em aplicativos de produtividade, cronogramas complexos ou metas extremamente rígidas.
Acredito que o hábito nasce quando deixamos de enxergar o estudo como uma obrigação temporária e passamos a entendê-lo como parte da profissão que escolhemos.
Não é sobre estudar duas horas todos os dias, é sobre nunca ficar tempo demais sem aprender alguma coisa. Alguns dias esse aprendizado vai acontecer durante um projeto no trabalho, em outros, através de um livro, de um artigo técnico, de uma documentação ou de um projeto pessoal.
E haverá dias em que o descanso será mais importante do que qualquer capítulo lido. Tudo isso faz parte do processo, no fim das contas, tecnologia muda o tempo todo. Ferramentas surgem, frameworks evoluem e novas linguagens aparecem todos os anos. O que realmente permanece é a capacidade de continuar aprendendo.
Talvez esse seja o hábito mais importante que podemos construir ao longo da carreira.
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